quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Em Goiás, dez cirurgias de separação de siameses foram feitas em 14 anos

No total, equipe acompanhou 27 casos de bebês de todo o país, diz médico.Em caso raro, irmãs separadas sobreviveram quase sem sequelas.

Raniela e Rafaela logo após a separação e hoje, aos 12 anos, em Goianésia, Goiás (Foto: Arquivo Pessoal)                  Há 14 anos foi realizada em Goiás a primeira cirurgia de separação de gêmeos siameses da região Centro-Oeste. O fato ganhou repercussão nacional e, desde então, outros 26 casos foram acompanhados pela equipe médica do Hospital Materno Infantil (HMI), em Goiânia, sendo que destes, nove chegaram a ser operados.

Lutando contra a estatística mundial de 5% de sobrevivência a cada 100 mil nascidos vivos, dos 20 bebês separados na unidade, 11 obtiveram sucesso. Entre eles estão as irmãs Raniela e Rafaela Rocha Cardoso, de 12 anos, que nasceram unidas pelo abdômen, passaram pela cirurgia e praticamente não ficaram com sequelas: "Nossa história é impressionante”, afirmou Raniela ao G1As meninas nasceram em setembro de 2002, no Hospital Municipal de Goianésia, no sul goiano, onde ainda moram. Mãe das gêmeas, a costureira Meire Rocha de Oliveira Cardoso, de 39 anos, conta que só depois do parto descobriu que as filhas eram unidas e compartilhavam o fígado. “Foi uma surpresa, fiquei nervosa, tinha medo de pegá-las e machucá-las”, lembra.O médico responsável pelo parto no interior encaminhou as meninas ao HMI, na capital. Quatro dias após a chegada, elas foram separadas pelo cirurgião pediatra Zacharias Calil Hamu, que é referência nacional neste tipo de procedimento e foi o responsável por todas as separações feitas no estado.As irmãs afirmam que ainda se emocionam quando assistem à gravação da cirurgia de separação. Apenas Raniela ficou com sequela, pois não tem o umbigo.Estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental, as gêmeas fazem praticamente tudo juntas. “Saímos juntas, brincamos juntas, estudamos na mesma sala, fazemos tarefas juntas”, conta Raniela. No entanto, a estudante garante que elas possuem aptidões diferentes: “Por exemplo, eu gosto mais de matemática e ela de português”.Para a mãe, ver as filhas tendo uma vida normal é gratificante. “Quando você olha para elas nem imagina tudo o que passaram. Graças a Deus deu tudo certo”.

Larissa e Lorrayne Gonçalves foram separadas em julho de 2010 no Hospital Materno Infantil, em Goiânia (Foto: Cristina Cabral/ O Popular)

Primeiro caso                                                                                                                                                        Menos de três anos antes do nascimento de Raniela e Rafaela, nasceram as primeiras siamesas Larissa e Lorrayne Gonçalves, em setembro de 2009. As gêmeas eram unidas pelo abdômen e pela pelve, compartilhando rins, estômago, bexiga, intestino grosso, uretra, vagina e ânus.Larissa e Lorrayne nasceram em um hospital de Goiânia. Tia biológica das meninas, a dona de casa Luciana Gonçalves da Cunha Silva, de 43 anos, tinha dois filhos e resolveu adotar as gêmeas com um mês de vida, pois a irmã não tinha condições de criá-las.A dona de casa conta que um médico ofereceu para separar as meninas antes que elas deixassem o hospital em que nasceram, mas ela não quis, porque teria que sacrificar uma delas. “O que eu mais queria era a separação, mas não queria escolher uma, tinha que salvar as duas”, diz Luciana ao G1.Menos de um mês depois, o caso das gêmeas ganhou repercussão, pois Luciana participou de uma reportagem em uma emissora de televisão pedindo ajuda para comprar o leite especial que as meninas tomavam. Ao verem que as meninas eram siamesas, vários médicos procuraram a família oferecendo para separá-las, entre eles  Zacharias Calil, que fez o procedimento.O caso de Larissa e Lorrayne era inédito. Por isso, o cirurgião conta que a equipe médica estudou intensamente como fazer a operação. “Fizemos um estudo grande, pesquisamos através de livros e estudando anatomicamente o corpo delas, o que elas compartilhavam. Quase ninguém no mundo tinha experiência pois são casos raros”, explicou o cirurgião.
As siamesas foram separadas aos 10 meses de vida, em julho de 2000. A cirurgia durou 14 horas e contou com uma equipe composta por 32 profissionais. “Deu certo, foi um sucesso, me marcou muito o caso delas”, diz Zacharias.

Primeira cirurgia de separação de siameses é realizada em julho de 2000, em Goiás (Foto: Cristina Cabral/ O Popular)

Dificuldades                                                                                                                                                               Larissa ficou apenas com uma das pernas, a esquerda, um rim e o seu coração é do lado direito. Já Lorrayne teve mais sequelas, principalmente devido à paralisia cerebral, que fez com ela não falasse nem andasse, mesmo tendo uma das pernas. Ela ingeria apenas alimentos triturados e usava uma bolsa de colostomia.
Aos sete anos, em maio de 2007, Lorrayne morreu na casa em morava, em Santo Antônio de Goiás, na Região Metropolitana de Goiânia. Ela se engasgou com leite e teve embolia pulmonar.
Já Larissa está com 15 anos e cursa o 1º ano do Ensino Médio. Sete anos depois da morte da irmã, ela afirma que ainda sente muito a falta de Lorrayne. “Apesar de ela não poder falar, a gente era muito unida, ela entendia tudo, a gente conversava pelo olhar. Tudo lembra ela”, conta.
Larissa, aos 15 anos, sonha em ser médica em Goiás (Foto: Arquivo Pessoal)           Para Larissa, estar viva é “um milagre”. Inspirada na própria história, ela sonha em ser médica e poder salvar vidas. “O doutor Zacharias salvou a minha vida e a da minha irmã. Ele me incentivou a querer fazer faculdade de medicina”, afirma.
 Para a mãe da garota, cada dia de vida da filha é “uma vitória”. “É uma história incrível, se fosse preciso fazer tudo de novo eu faria, compensou cada noite mal dormida, chegava a desmaiar de cansaço. Eu fico emocionada de ver a Larissa bem depois de tudo o que elas passaram e sei que ela ainda vai passar por muitas coisas”, concluiu Luciana.             Ansiedade                                                                                                                                                                     As histórias das meninas goianas ajudam a tranquilizar outras famílias que têm filhos siameses, como a da professora bahiana Eliana Ledo Rocha Brandão, de 28 anos. Ela é mãe de Arthur e Heitor Ledo Rocha Brandão, de 5 anos, que ainda aguardam a cirurgia de separação.
Os gêmeos são unidos pelo tórax, abdômen e bacia, compartilhando o fígado, intestino, bexiga e genitália. Atualmente, eles possuem sete expansores de pele, mas ainda não chegaram ao nível ideal para a cirurgia. Desde 2009, eles já passaram por mais de 15 procedimentos cirúrgicos. A família acredita que a separação deve ser feita em fevereiro de 2015. "Tem muito tempo que estamos nessa luta, coração está a mil. A gente não esperava que eles chegassem até essa idade juntos", afirma a professora.
Com personalidades “totalmente diferentes”, os gêmeos sonham com a cirurgia. "Eles querem se separar, não querem desistir porque sabem que vão ter liberdade, uma independência maior, poder ir sem precisar da permissão do outro", diz a mãe.                                                                          Arthur e Heitor querem se separar para ter independência, em Goiânia, Goiás (Foto: Eliana Ledo Rocha Brandão/Arquivo Pessoal)
Eliana afirma que, apesar das restrições físicas, os filhos não possuem nenhum problema cognitivo. Inclusive, ela os alfabetizou: "Eles já sabem ler e escrever, aliás, são avançados para a idade deles".Natural de Riacho de Santana, cidade do interior da Bahia, Eliana veio a Goiânia um mês antes do nascimento dos filhos para que eles tivessem acompanhamento desde o parto, em maio de 2009. Após o nascimento, ela voltou para a terra natal por um período e, desde 2010, mora em Goiânia com os siameses. O marido e a filha mais velha, de 7 anos, continuam no Nordeste.
                  Para ela, a separação física da família é o mais difícil de suportar. “É uma vida que a gente tinha lá, trabalho, por isso ficamos nessa ansiedade pela cirurgia, mas tem tudo a hora certa, Deus está preparando. A gente corre e luta para dar uma vida melhor pra eles”, afirma. Também é da Bahia a família do caso mais recente de gêmeos siameses acompanhado pelo HMI. Anny Beattriz e Anny Gabrielly nasceram no último    dia 10 de dezembro. Elas seguem internadas em estado grave na  Unidade de Terapia Intensiva do hospital. Unidas pelo tórax e abdômen, as recém-nascidas compartilham o fígado e uma delas tem má formação renal. Ainda não há previsão para a cirurgia de separação delas.
Gêmeas siamesas nasceram unidas pelo tórax e abdomen em Goiânia, Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)                Causas                                                                         De acordo com a literatura médica, 60% dos siameses, que também são chamados de gêmeos conjugados, morrem antes ou após o nascimento, 35% morrem no primeiro dia de vida e 5% sobrevivem. Dos sobreviventes, 25% chegam a idade adulta. Além disso, 70% são do sexo feminino, mas não se sabe qual a razão para isso.
Zacharias Calil explica que nenhuma mulher está livre de gerar um feto com essa patologia. Segundo o cirurgião pediátrico, os gêmeos conjugados surgem de uma divisão incompleta do óvulo. Fatores ambientais, como o contato com agrotóxicos, estão entre as principais causas para esta má formação.
“Como exemplo cito os dados da Guerra do Vietnã, onde eles utilizaram o agente laranja, que era um desfolhante. A população foi toda atingida e foi constatado que houve incidência gritante de má formação e abortos. O agrotóxico mimetiza as células como se fosse um hormônio natural e direciona as células a provocarem erros na formação”, diz Calil.
Para o médico, o desenvolvimento tecnológico permite estudar melhor os bebês e, assim, aumentar o índice de sobrevivência. Os exames de imagens, por exemplo, estão cada vez mais nítidos e permitem estudar os gêmeos ainda no ventre materno. “Após o exame de imagem, a gente o transforma em um protótipo, um biomodelo, de maneira que a gente pode programar e ter mais segurança de como proceder a separação”, explica o médico.
Fonte: G1 Goias

sábado, 20 de dezembro de 2014

Falta de produtos se agrava na Venezuela com queda do petróleo

A falta de produtos básicos, como a fralda para a filha de Eugenia, tem se agravado na Venezuela com a forte queda no preço do petróleo nos últimos meses.

O país é altamente dependente dos recursos da exportação do produto – segundo estimativas, 96% das receitas de exportação são provenientes do produto. Petróleo mais barato significa menos dinheiro nos cofres do país para garantir acesso a moeda estrangeira e importações de produtos.
Assim, filas para itens simples têm se espalhado pelo país.
Produtos básicos, como fralda e leite, sumiram e pessoas fazem filas para tentar comprá-los.
Eugenia Martinez disse ter acordado às 3h para comprar dois pacotes de fraldas para a filha.
"Em nenhum lugar em Caracas você consegue encontrar fraldas", diz a dona de casa. "Então quando alguém me avisa sobre onde encontrá-las, tenho que ir."
Mesmo tão cedo, Eugenia conta ter enfrentado um metrô lotado, antes de se juntar a mais uma fila. Achadas as fraldas, o desafio agora é encontrar leite.
"Todos os dias eu tenho que ficar na fila para encontrar o que eu preciso. Agora, eu não consigo encontrar uma lata de leite. Não acho em nenhum lugar. Estou preocupada porque só tenho uma lata em casa."
"Não consigo imaginar como serão as coisas em janeiro. Desse jeito, vamos passar fome."
Em junho, o preço do barril do petróleo venezuelano – mais pesado para os padrões internacionais – estava ao redor de US$ 100. Na semana passada, o preço chegou a US$ 57,53.
'Economia de guerra'
A queda do preço do petróleo significa menos dólares nos cofres do governo da Venezuela e para o pagamento de importações.
Para o empresário Alex Hernández, a queda do preço do petróleo tornou ainda mais difícil o acesso a moeda estrangeira necessária para comprar os produtos importados que ele vende.
"Não temos guerra mas é uma economia de guerra. Porque mesmo quando você tem dinheiro você não consegue encontrar o que quer. Empresários estão sob risco", diz ele.
Homem mostra senha escrita en seu braço para marcar seu lugar numa fila para comprar alimentos em um mercado do governo em Caracas
Em 2003, o governo venezuelano definiu uma taxa fixa para o câmbio. A medida foi adotada para que o governo mantivesse o controle sobre os preços e garantir que alguns itens básicos, como pão e arroz, ficassem mais acessíveis aos pobres.
Diante do controle cambial, pessoas e empresas podem receber dólares na taxa oficial somente através de uma agência do governo – e somente para fins de importação de bens ou pagamento de viagens ao exterior.
Como Hernández disse, o preço de produtos na Venezuela tem subido. A taxa de inflação oficial do governo está em 63,4% e o país está beira da recessão.
Foi a primeira vez desde maio que o Banco Central local divulgou o índice de inflação. Críticos acusam o governo de omitir dados por razões políticas.
O BC também não divulgou o índice de escassez, que revela os produtos que estão em falta. Mas é evidente que a dificuldade de se obter produtos básicos tem gerado descontentamento entre muitos.
"Todos os venezuelanos têm sentido no bolso a queda do preço do petróleo. Evidentemente está custando muito para a gente. Porque quando o preço cai há menos moeda estrangeira para os importadores", disse Hernández.
"Aqui na Venezuela 90% dos produtos são importados. Quase tudo o que se consome na Venezuela é importado. E lamentavelmente isso colabora para que a alta dos produtos seja maior."
O mecânico Enrique Moreno também se diz afetado pela escassez de produtos - no caso dele, de peças de reposição importadas.
"Nos dizem que este país tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas para mim isto é mentira, porque se fosse verdade, não deveríamos estar onde estamos", disse.
"Estamos num período de insatisfação. Você sente nas ruas, falando com as pessoas." Fonte: BBC BRASIL

Brasileiro Gabriel Medina é campeão mundial de surfe

O Brasil tem um novo ídolo esportivo: o surfista Gabriel Medina, que conquistou nesta sexta-feira o título mundial em Pipeline, no Havaí, diante de adversários experientes e campeões como o norte-americano Kelly Slater e o australiano Mick Fanning. É a primeira vez na história que o País garante um troféu na elite deste esporte.
Outros brasileiros já brilharam na modalidade, mas nunca haviam chegado tão longe quanto o garoto de Maresias (praia de São Sebastião, em São Paulo), que nesta segunda faz 21 anos. A façanha ocorreu no Pipe Masters, a última etapa da temporada, disputada no Havaí.
Ele já liderava o ranking mundial com uma boa vantagem sobre seus concorrentes antes do início da disputa em Pipeline e durante a competição mostrou talento para garantir o título mundial ao vencer suas baterias e contar com o tropeço de Mick Fanning na quinta fase da competição - o brasileiro Alejo Muniz eliminou o australiano.
Gabriel Medina comemora resultado (Foto: AFP)
“Significa muito para mim poder ser o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe”, disse Gabriel Medina. Este é o quarto ano dele no Circuito Mundial de Surfe - em 2011, quando estreou, disputou apenas quatro etapas, ganhando duas e chamando a atenção para o seu talento precoce. Logo em sua primeira etapa na elite, em Hossegor, na França, ele venceu com um show de aéreos e mostrou que daria muito trabalho para as feras. Naquele mesmo ano, ainda faturou o Rip Curl Pro Search, em São Francisco. Terminou a temporada na 12.ª posição, mesmo não tendo participado de nem metade das etapas.
No ano seguinte provou que aqueles que apostavam nele estavam certos e terminou na sétima posição, ficando em segundo lugar em duas etapas e mostrando uma consistência. Em 2013, prejudicado por lesões, ficou em 14.º lugar, com apenas dois bons resultados - um segundo lugar e um terceiro. Mas ver de perto o título do amigo e conselheiro Mick Fanning deu um grande estímulo para que ele pudesse brilhar na temporada seguinte. Só que ainda no Havaí, no final de 2013, o brasileiro se machucou em um treino livre depois do Pipe Masters. “Quebrei a perna dias depois do campeonato, em um aéreo bobo. Também não tinha dormido direito na noite anterior, estava me sentindo meio cansado, e já era meio estresse de competição. Rompi três ligamentos e minhas férias foram com gesso”, relembrou.
Medina trouxe título inédito 
(Foto: AFP)
Amadurecimento
A partir daí, iniciou a sua recuperação e reforçou os treinamentos funcionais com o preparador Allan Menache. Na primeira etapa do ano, em Gold Coast, na Austrália, venceu e chamou a atenção por ser o primeiro “goofy” (que surfa com o pé direito na frente) após dez anos a ganhar lá. Depois venceu em Fiji e no Taiti, nos temidos tubos de Teahupoo, diante do maior especialista naquele tipo de onda: Kelly Slater. “As etapas que eu ganhei este ano mostram meu amadurecimento. Eram ondas com tamanho grande. Em Snapper Rocks (Austrália) estava competindo com os melhores regulares, aqueles que surfam para a direita. Depois fui para Fiji, consegui ganhar a etapa que o Kelly dominava, foi muito legal porque era um local em que sempre quis vencer.
Depois teve Teahupoo, e todos achavam que o vencedor seria o Kelly ou o John John, mas acabei ficando calmo e obtive a vitória. Essas três conquistas foram especiais e vou lembrar para sempre”, disse Gabriel Medina. Os importantes resultados e o título mundial colocam agora o brasileiro no foco para 2015. Sua popularidade cresce em proporções gigantescas, ele acumula patrocínios (já tem 11) e é cada vez mais um ídolo para os brasileiros. Apesar da fama, garante que não vai mudar. “Apesar dos bons resultados que venho tendo eu nunca mudei, sou o Gabriel de sempre, com os mesmos amigos de quando era pequeno. Trato bem meus pais e irmãos, nada mudou. Minha mãe e meu pai continuam me botando no lugar em casa e sempre fui pés no chão”.

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