A autora Milly Lacombe teve encontros regulares com Mara para escrever 'Depois Daquele Dia'
A vida de qualquer um pode mudar de repente e radicalmente para pior, mas nem todos sabem lidar com isso. Sobretudo, quando esta mudança limita suas ações e atividades. A grosso modo, é disso que trata a biografia Mara Gabrilli - Depois Daquela Viagem (Benvirá/R$ 34,90/336 páginas), escrita pela jornalista carioca Milly Lacombe, colunista da revista TPM.
Em sua primeira biografia, Milly mergulhou completamente na vida da deputada federal pelo PSDB paulista que, por causa de um acidente de carro, perdeu os movimentos do seu corpo.
Com essa história que tinha tudo para ser triste, a escritora mostra o intenso processo de superação e adaptação de Mara, 45 anos, numa cadeira de rodas, que foi levado de forma bem-humorada. "Ela é engraçada, é sarcástica, tira sarro dela mesma a todo o instante", revela Milly, 46.
AcidenteÉ irônico uma jovem que sempre foi conhecida pela sua hiperatividade não poder mais andar, pular, dançar, correr, esquiar... Ao saber das novas condições físicas da garota, Norma - uma mulher que entrou na família Gabrilli como babá e permaneceu durante anos sendo cúmplice, amiga e quase mãe da biografada - só conseguia repetir: "Ô meu Deus, e eu que pedi tanto para essa menina sossegar".
A mulher de 26 anos que costumava não ter medo de nada voltava de um final de semana na casa de praia da família, em Paraty, com o namorado e um amigo, quando ocorreu o acidente. Nesse dia sua vida não acabou, mas mudou completamente.
Ao descobrir que havia perdido os movimentos da cabeça para baixo, Mara, ainda no hospital e respirando com ajuda de aparelhos, teve uma atitude surpreendente. A sua única reação foi pensar em como ajudaria os médicos à ajudá-la.
O primeiro obstáculo a ser vencido foi conseguir respirar novamente por si só. Mara parecia ter pulado as etapas de aceitação e depressão de pacientes como ela. Mas sua segunda preocupação deixava claro que não era só aparência - "Como vai ser minha vida sexual?". É, realmente ela tinha pulado todas as fases melancólicas.
Esse, por sinal, era um dos temas que mais constrangia Milly Lacombe durante as incansáveis, pelo menos para Mara, entrevistas. "O conteúdo sexual é alto e eu sou mais envergonhada do que ela. Mas todos os assuntos foram explorados até a última gota", revela a escritora que quebrou muitos tabus que tinha em relação aos deficientes físicos.
O primeiro obstáculo a ser vencido foi conseguir respirar novamente por si só. Mara parecia ter pulado as etapas de aceitação e depressão de pacientes como ela. Mas sua segunda preocupação deixava claro que não era só aparência - "Como vai ser minha vida sexual?". É, realmente ela tinha pulado todas as fases melancólicas.
Esse, por sinal, era um dos temas que mais constrangia Milly Lacombe durante as incansáveis, pelo menos para Mara, entrevistas. "O conteúdo sexual é alto e eu sou mais envergonhada do que ela. Mas todos os assuntos foram explorados até a última gota", revela a escritora que quebrou muitos tabus que tinha em relação aos deficientes físicos.
"Eu sentia pena, e hoje não sinto mais. O que sinto é respeito. Mara me mostrou que o deficiente é alguém como eu, só que com outros tipos de limitações. Todos temos limitações, e as deles estão expostas. Essa é a única diferença. Eu evitava olhar, evitava perguntar o que aconteceu, e ela me mostrou que esse tipo de reação não é a ideal".
Deputada A situação financeira de Mara contribuiu para que ela tivesse um tratamento de primeiro mundo, já que depois do primeiro atendimento em São Paulo, ela seguiu para os EUA. "O que é admirável é que, ao se encaixar outra vez numa forma confortável de viver, ela disse: agora vou ajudar outros que tenham dificuldade de locomoção como eu, mas que não têm o dinheiro que tenho", diz Milly.
Sua maior contribuição vem sendo na política, como deputada federal, com criação de leis que beneficiam e enxergam os deficientes não como carmas da sociedade, mas como pessoas normais com limitações físicas.
"Mara me ensinou que as pessoas que fazem a diferença, seja dentro de uma casa, de pequena comunidade ou em âmbito mais amplo, são as que aceitam a vida. É duro demais, mas só assim é que podemos evoluir. Aceitar não significa adotar atitude passiva diante das circunstâncias, e sim reconhecê-las, registrá-las e ver como seguir nesse novo cenário", pontua Milly. Fonte : Correio 24 Horas